No anseio de tentar deixar pedaços da vida para trás, abri meus olhos; minha vida estava por um fio. Deitei no exato momento em que retomei a consciência, percebendo que só restava uma cama de conformismos. Senti prazer diante do aconchego oferecido. Desmaiei banhado em meu próprio pranto, desconhecendo o verdadeiro motivo.
Acordei longe de tudo, observando a imponente aurora que apressada tomava seu lugar, expulsando o insolente e desagradável crepúsculo que anteriormente entrara em cena. Ainda deitado percebi que não havia mais conforto em meu leito. O conformismo cedera seu lugar à revolta; a indiferença tomou outro rumo.
Prontamente coloquei-me em pé, tentando livrar o meu corpo dos espinhos que paulatinamente o penetravam. Observei o límpido céu por minutos que mais pareceram horas. O horizonte era perfeito, natural. Minh’alma esvoaçava com a gélida brisa da manhã. Meus cabelos indicavam a direção do vento que arrancava mais lágrimas de meus olhos.
O pranto cansado ainda não dava sinais do seu fim. A imensa revolta assustava, tornando imperceptível o ultimo pedaço de razão que ali restava. Virei meus olhos percebendo então que ainda havia um corpo no chão. Talvez um estranho, talvez meu próprio corpo; provavelmente um engano.
Quis perder a ilusão do momento. Tentava chegar perto da matéria, porém a brisa aconchegante, num instante, passou a ser tempestade. Tudo ficava distante, disperso. Entre incontáveis sentimentos desconhecidos, tive medo. Temi cada momento, exalando toda fraqueza que anteriormente escondia a todo custo. Desejei um derradeiro suspiro, percebendo que não tão cedo o teria. Fui brinquedo dos deuses. Objeto de uma piada divina. Motivo do incansável riso dos habitantes dos céus.
O mundo que girava sob meu corpo era distinto do que habitava minh’alma, que o observava desconsiderando a ideia de voltar a seu antigo lar. Tudo estava fora de foco. A confusão que se fazia presente transcendia o grau de normalidade e de estranheza ao mesmo tempo. Os fatores que influenciavam os diversos sentimentos se alteravam constantemente, implicando numa inconstância do humor consciente, que de forma involuntária expressava exatamente o contrário do que se queria expelir.
Astral estranho perceptível de longe desde então. Entrei no campo minado sabendo dos riscos. Pisei nas mais diversas minas explodindo sentimentos resguardados no meu corpo. Morri mil vezes, tornando-me diferente a cada ressurreição. Nasci em outros mundos. Fui parte de outros povos. Vivi outras culturas e outras épocas. Aprendi ser animal, passei a ser mais racional. Fui velho mendigo esmolando na praça; fui ébrio constante internado no hospício. Meditei por anos à sombra da videira. Vivi minha vida inteira num piscar de olhos, no virar da página, no voo da borboleta. Passei anos em minutos. Vivi séculos em segundos. Fui forasteiro, revolucionário, sanguinário, bobo da corte. Fui espírita, padre, budista e gnomo. Passei por diversos horizontes navegando pelos mares nas várias cruzadas. Dormi na trincheira imunda ao lado do inimigo aguardando a paz anunciada. Acordei com as trombetas cantando a morte presumida dos guerreiros cansados. Esperei o derradeiro toque divino dos sinos que daria por encerrada a batalha. Descobri que o fim da vida bate na porta a cada instante. Vida inconstante, desigual; vida fremente, sonho real. Guardei pedaços de um muro que nada mais separa. Senti-me mal ao cruzar sete mares a bordo de um navio. Nau à deriva. Odisseia esquecida. Jamais vi culto algum por isso.
Como num sonho de uma noite mal dormida, corri com todas as forças sem conseguir sair do lugar. Estava preso num mundo de extremos; hora queria sair dali a todo custo, porém nos momentos serenos, somente a paz reinava. Quis tornar a paz constante. Prazer negado pelo fim do efeito confuso da droga lícita preferida. Talvez na próxima dose eu reveja meu corpo estendido pelo universo distinto. Talvez no próximo porre eu me arrependa do caminho percorrido. Mas sao nas ilusões insensatas que tenho perspectivas diferentes. Quem sabe eu me encontre no próximo memorável devaneio. Quem sabe estarei eu perdido no meu próprio roteiro. Sao quando as desejáveis estórias me consomem dentro dos meus devaneios que sinto o quanto é melhor passar uma vida dormindo; o irrealizável se torna constante. O sonho se torna presente. O irreal não existe. Tudo passa da ilusão e da ficção à história.
p.s: Como todos sabem, não sou de postar textos que não sejam meus, mas esse mereceu. Créditos ao Matheus Cecco.
